Uma reflexão missiológica a partir da campanha “Io scelgo di Vivere - Eu decido viver”, realizada pela CCEBAM em Mântua (Mantova), Itália
Introdução — A missão permanece, mas os contextos mudam
A Igreja de Jesus Cristo recebeu uma missão que atravessa gerações, culturas e fronteiras: anunciar o Evangelho e fazer discípulos de todas as nações (Mt 28:18–20). Essa responsabilidade não pode ser abandonada nem adaptada de maneira que comprometa a mensagem bíblica. O Evangelho da salvação em Jesus Cristo permanece o mesmo. Entretanto, a fidelidade à mensagem não significa que todos os métodos de evangelização devam permanecer inalterados. As sociedades se transformam, as relações entre as pessoas mudam e os contextos nos quais a Igreja está inserida apresentam desafios que exigem discernimento missionário.
A história do evangelismo demonstra que muitas práticas consideradas tradicionais foram desenvolvidas em circunstâncias específicas. Robert T. Handy (1969), ao analisar o evangelismo moderno nos Estados Unidos, mostra como as campanhas de avivamento se tornaram predominantes no protestantismo do século XIX. O autor também observa que as transformações culturais e o crescimento do pluralismo religioso modificaram as condições em que a mensagem cristã era anunciada. Jayne Kirkland (1993), ao examinar as raízes do evangelismo moderno, demonstra que práticas como reuniões evangelísticas, campanhas públicas e determinados métodos de apelo foram desenvolvidas e difundidas ao longo da história dos movimentos de avivamento. Sua análise ajuda a compreender que os métodos possuem uma história e não devem ser confundidos com a própria essência do Evangelho. Essa distinção conduz a uma pergunta necessária: como anunciar Jesus Cristo a pessoas que dificilmente participariam de um culto evangélico, sem alterar a mensagem recebida pela Igreja? David Allen Bledsoe expressa um princípio importante para essa reflexão: “Alterar a mensagem, não! Fazer com que os ouvintes a entendam, sim!” (BLEDSOE, p. 5).
Uma experiência que ilustra esse princípio é a campanha de prevenção do suicídio “Io scelgo di Vivere” — “Eu Escolho Viver”, promovida pela Chiesa Cristiana Evangelica Battista di Mantova (CCEBAM), na Itália, que chegou à sua sétima edição em 2026 (link: https://youtu.be/T6qzShqiEM0 ). A iniciativa demonstra como uma atividade de interesse público pode abrir as portas da Igreja para pessoas que dificilmente seriam alcançadas pelas programações eclesiásticas habituais. Mais do que oferecer um modelo a ser reproduzido, a experiência de Mântua apresenta princípios que podem estimular outras comunidades cristãs a reconhecer oportunidades missionárias em suas próprias cidades.
1. Compreender o contexto e alcançar pessoas além das paredes da Igreja
Jesus é o maior modelo missionário da Igreja. Seu ministério não ficou restrito aos espaços religiosos nem às pessoas que já pertenciam aos círculos socialmente reconhecidos. Ele se aproximou de indivíduos marginalizados, estabeleceu relacionamentos e atravessou barreiras sociais e culturais. No episódio de Zaqueu, Jesus tomou a iniciativa de aproximar-se de um homem rejeitado por muitos e entrou em sua casa. Aquele encontro abriu espaço para o arrependimento e a transformação. Ao explicar sua missão, Cristo declarou que o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido (Lc 19:1–10). A Igreja é chamada a seguir esse exemplo. Isso exige compreender as pessoas, reconhecer a realidade em que vivem e desenvolver formas de aproximação que permitam comunicar o Evangelho com clareza e respeito.
David Allen Bledsoe destaca a importância de conhecer o contexto dos ouvintes e identificar as barreiras que dificultam a compreensão da mensagem cristã. A contextualização não consiste em modificar o conteúdo bíblico, mas em procurar maneiras fiéis e compreensíveis de apresentá-lo. O encontro de Filipe com o eunuco etíope ilustra esse princípio. Filipe aproximou-se daquele homem, ouviu sua dificuldade para compreender as Escrituras e, a partir daquela necessidade, anunciou Jesus (At 8:26–35). A história do evangelismo também oferece exemplos de diferentes formas de aproximação. Segundo Kirkland (1993), John Wesley utilizava a pregação pública para despertar o interesse espiritual e incentivava as pessoas a continuar sua caminhada em pequenos grupos. Na interpretação da autora, a evangelização não se limitava a um único encontro, mas podia envolver relacionamentos e acompanhamento.
Essa perspectiva demonstra que a missão da Igreja não precisa ficar restrita a um formato de programação. Em Mântua, a CCEBAM identificou uma oportunidade de aproximação por meio de um debate sobre a prevenção do suicídio. O tema, de interesse de toda a sociedade, permitiu reunir pessoas que provavelmente não aceitariam um convite para participar de um culto evangélico. A iniciativa criou um espaço legítimo de diálogo, no qual a Igreja pôde servir à cidade e estabelecer relacionamentos com participantes de diferentes origens e convicções. Não se tratava de transformar o debate em um culto disfarçado. O encontro possuía uma finalidade pública claramente definida e foi desenvolvido de maneira coerente com essa proposta. A estratégia foi diferente, mas a identidade cristã e a mensagem da comunidade permaneceram as mesmas.
A fidelidade ao Evangelho não exige que a Igreja se limite aos métodos com os quais já está familiarizada. Exige que a mensagem seja preservada, mesmo quando novas formas de aproximação são desenvolvidas.
2. Servir à cidade e construir pontes: a experiência da CCEBAM em Mântua
A campanha “Io scelgo di Vivere” nasceu do compromisso da CCEBAM com a valorização da vida e com uma presença cristã significativa na cidade de Mântua. Ao longo de sete anos, a iniciativa tornou-se uma oportunidade de aproximação entre a Igreja e a sociedade. Em vez de restringir sua presença missionária às programações eclesiásticas, a comunidade desenvolveu uma atividade que responde a uma questão de interesse público e reúne pessoas de diferentes contextos.


Uma das características centrais da campanha é seu formato multidisciplinar. O debate realizado na CCEBAM contou com a participação de profissionais das áreas da medicina, psicologia, psicoterapia e direito, além de representantes de instituições e organizações da sociedade civil. Cada participante contribuiu a partir de seu campo de atuação, conferindo ao encontro um caráter público e multidisciplinar. A programação também contou com a participação de um padre católico da cidade, convidado para refletir sobre a contribuição da religião para a prevenção do suicídio. Ele esteve acompanhado de fiéis de sua comunidade, ampliando a diversidade do público presente. Esse aspecto foi especialmente significativo para a experiência missionária da CCEBAM. Pessoas que provavelmente não participariam de um culto evangélico aceitaram o convite para estar na igreja porque reconheceram a relevância do encontro. A participação do sacerdote não representou uma aproximação doutrinária entre as comunidades, mas a colaboração em uma iniciativa de interesse público. A CCEBAM manteve sua identidade evangélica e suas convicções bíblicas, ao mesmo tempo que abriu suas portas para um diálogo respeitoso com pessoas de diferentes tradições religiosas. O evento também recebeu atenção da televisão local, ampliando a divulgação da campanha e tornando a iniciativa conhecida além dos participantes presentes. O valor missionário dessa experiência, entretanto, não está simplesmente no número de pessoas reunidas ou na repercussão pública. Está na disposição de construir relacionamentos fora dos ambientes habituais da Igreja.


Ao abrir suas portas para um debate de interesse da cidade, a CCEBAM tornou-se um espaço de encontro entre pessoas que, em outras circunstâncias, talvez nunca tivessem tido contato com a comunidade. Essa disposição encontra fundamento nas palavras de Jesus sobre o sal e a luz (Mt 5:13–16). A Igreja não foi chamada a viver isolada da sociedade, mas a testemunhar sua fé no mundo em que está inserida. David Bosch, ao discutir as diferentes dimensões da missão cristã, relaciona a proclamação, a comunhão e o serviço ao testemunho da Igreja (BOSCH, p. 609–610). Essa distinção ajuda a compreender que uma iniciativa de serviço à cidade pode integrar a presença missionária da comunidade cristã sem ser confundida com a evangelização propriamente dita. Kirkland (1993) também recorda que a história do evangelismo inclui iniciativas de ação social e cuidado com populações marginalizadas. O envolvimento com necessidades concretas da sociedade, portanto, não precisa representar um afastamento da missão cristã.
Na CCEBAM, o debate não foi concebido como uma estratégia para condicionar a participação das pessoas à adesão religiosa. Foi uma iniciativa pública de serviço, realizada a partir da identidade cristã da comunidade. Ao mesmo tempo, os relacionamentos construídos por meio dessa atividade criaram oportunidades para compartilhar a fé de maneira transparente e respeitosa. O exemplo de Mântua demonstra que a Igreja pode construir pontes missionárias quando reconhece as necessidades de sua cidade e se dispõe a participar de sua realidade.
3. Construir pontes sem substituir a proclamação do Evangelho
O serviço à sociedade pode abrir portas, mas não substitui a responsabilidade da Igreja de anunciar Jesus Cristo. J. Mack Stiles define a evangelização como “o ensino do evangelho com o objetivo de persuadir” (STILES, 2015, p. 27). Essa definição recorda que a evangelização possui um conteúdo específico: a mensagem da salvação em Cristo. Stiles (2015) também destaca a importância de desenvolver uma cultura de evangelização que não dependa exclusivamente de grandes programações. O testemunho cristão deve fazer parte dos relacionamentos, das conversas e da vida cotidiana dos membros da Igreja. Ryan Denton (2021), em Ten Modern Evangelism Myths, questiona a ideia de que exista apenas uma maneira correta de evangelizar. Sua reflexão também convida a Igreja a não depositar sua confiança nos métodos, como se determinada estratégia pudesse produzir, por si mesma, a conversão de alguém.
Essa distinção é fundamental para compreender a experiência de Mântua. O debate multidisciplinar foi uma oportunidade de servir à sociedade, promover o diálogo e reunir pessoas de diferentes contextos. A proclamação do Evangelho, por sua vez, ocorreu de maneira explícita e transparente. Ao final do encontro, depois das contribuições dos convidados, o pastor da CCEBAM compartilhou uma breve mensagem bíblica baseada na experiência do profeta Elias, registrada em 1 Reis 19. O texto apresenta Elias depois de um período marcante de seu ministério. Diante das circunstâncias que enfrentava, o profeta fugiu, isolou-se e expressou o desejo de morrer. Sua experiência recorda que a Bíblia não esconde a fragilidade humana nem apresenta seus personagens como pessoas imunes ao sofrimento. Entretanto, o relato não termina com o desejo de Elias de desistir. Deus se aproxima do profeta, sustenta-o e o conduz adiante. Na sequência da narrativa, Elias recebe uma nova orientação para continuar sua caminhada. A partir dessa passagem, a reflexão apresentou a valorização da vida e conduziu os participantes à mensagem central do Evangelho: a salvação em Jesus Cristo. Nele se encontra o anúncio do perdão, da reconciliação com Deus e da vida nova.


A mensagem foi compartilhada de maneira clara e respeitosa, em um momento integrado à programação do encontro. Assim, os participantes tiveram a oportunidade de ouvir o Evangelho sem que o caráter público e multidisciplinar do debate fosse descaracterizado. Essa experiência demonstra que servir à sociedade e anunciar Cristo são responsabilidades que podem caminhar juntas, sem que uma seja utilizada para disfarçar ou substituir a outra. Handy (1969) chama a atenção para o risco de identificar a evangelização exclusivamente com o recrutamento de novos membros para uma instituição religiosa. Essa reflexão ajuda a recordar que o propósito do anúncio cristão não deve ser reduzido ao crescimento de uma denominação. O objetivo da iniciativa não era medir seu êxito pelo número de pessoas que passariam a frequentar a CCEBAM. A proposta consistia em contribuir para a cidade, estabelecer relacionamentos genuínos e aproveitar, com respeito, a oportunidade de apresentar o Evangelho.
A missão também não termina quando o evento acaba. Os relacionamentos iniciados durante o debate, as ações de evangelização realizadas nas ruas de Mântua e as conversas que surgem depois da campanha permitem que o testemunho cristão continue. O livro de Atos mostra que a expansão da Igreja exigiu disposição para atravessar fronteiras culturais. A mensagem alcançou samaritanos, um etíope e diferentes comunidades gentílicas (At 8; 10–11). Esses relatos desafiam a Igreja a sair dos ambientes com os quais está familiarizada e a comunicar a mesma mensagem em diferentes contextos.
As estratégias podem abrir caminhos, mas o centro da evangelização permanece sendo Jesus Cristo.
Conclusão — O que outras igrejas podem aprender com a experiência de Mântua?

Os sete anos da campanha “Io scelgo di Vivere” demonstram que uma igreja local pode desenvolver iniciativas relevantes para sua cidade sem abandonar sua identidade e sua responsabilidade evangelística. A experiência permitiu à CCEBAM contribuir para uma questão de interesse público, estabelecer relacionamentos com profissionais e instituições, dialogar com pessoas de diferentes tradições religiosas e apresentar o Evangelho a participantes que dificilmente seriam alcançados por suas atividades habituais.
Entretanto, o exemplo de Mântua não deve ser entendido como um modelo que todas as igrejas precisam reproduzir. O que pode ser aplicado em outros contextos não é necessariamente o formato do evento, mas o princípio missionário que o orientou. Cada igreja está inserida em uma realidade própria. Em algumas cidades, uma oportunidade pode surgir por meio de iniciativas voltadas às famílias. Em outras, pode estar relacionada à integração de imigrantes, à valorização da vida, ao apoio a idosos ou a outras questões que mobilizam a comunidade. O primeiro passo é conhecer a realidade local. O segundo é identificar de que maneira a igreja pode contribuir com responsabilidade, reconhecendo seus recursos e estabelecendo parcerias quando necessário. O terceiro é desenvolver relacionamentos genuínos, sem transformar as pessoas em instrumentos de uma programação religiosa.
A partir dessas pontes, surgem oportunidades para compartilhar a fé de maneira clara e respeitosa. A experiência de Mântua também demonstra que uma iniciativa não precisa ser grandiosa para ser relevante. É possível começar com uma conversa, uma parceria ou uma atividade bem planejada. O essencial é que exista um compromisso verdadeiro com as pessoas e que a comunidade cristã esteja disposta a sair de seus espaços habituais. As reflexões de Handy e Kirkland recordam que os métodos evangelísticos possuem uma história. Bledsoe destaca a importância de compreender o contexto dos ouvintes. Bosch contribui para distinguir as dimensões do testemunho cristão. Stiles e Denton reforçam a centralidade do Evangelho e a responsabilidade de anunciá-lo com fidelidade.
A experiência da CCEBAM em Mântua é, portanto, um convite para que outras igrejas façam uma pergunta simples, mas necessária: Quais pontes podem ser construídas em cada cidade para servir às pessoas e criar novas oportunidades de anunciar Jesus Cristo? Não é necessário abandonar os métodos já utilizados. É necessário, porém, reconhecer oportunidades que talvez ainda não tenham sido consideradas. O desafio da Igreja contemporânea não é criar um novo Evangelho, mas desenvolver formas de aproximação que permitam a mais pessoas conhecer a mensagem recebida de Cristo. A mensagem não muda! O amor de Cristo move a Igreja! E a missão desafia cada comunidade a construir pontes onde antes existiam distâncias!
Referências bibliográficas
BÍBLIA SAGRADA. Mateus 5:13–16; 28:18–20; Lucas 19:1–10; Atos 8; 10–11; 1 Reis 19. Almeida Corrgida
BLEDSOE, David Allen. Evangelização via relacionamentos. Junta de Missões Nacionais, Edição Kindle.
BOSCH, David J. Missão transformadora: mudanças de paradigma na teologia da missão. p. 609–610. Sinodal, 2002.
DENTON, Ryan. Ten modern evangelism myths: a biblical corrective. Grand Rapids: Reformation Heritage Books, 2021.
HANDY, Robert T. Evangelism today: the historical context of modern evangelism. Mid-Stream, v. 8, n. 4, p. 4–16, 1969.
KIRKLAND, Jayne. The roots of modern evangelism. Stimulus, v. 1, n. 1, p. 28–35, fev. 1993.
STILES, J. Mack. Evangelização: como criar uma cultura contagiante de evangelismo na igreja local. São Paulo: Vida Nova, 2015. E-book.
Notas
Links da campanha: https://www.asst-mantova.it/eventi/io-scelgo-vivere e https://ucebi.org/2026/09/24/io-scelgo-di-vivere/
A CCEBAM é uma Igreja Batista italiana, sendo sua composição multiétnica de 20 nacionalidades distintas dos 5 continentes, situada na cidade de Mantova (Mântua) na Itália. O pastor Evandro Coelho (brasileiro) desenvolve o trabalho há 10 anos na cidade junto com sua esposa Juniana, e é pai de três filhos: Josué, John, Jeremy.



